Curiosidades do Vale do Ribeira e Suas Cidades

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5.2.09

Conto “QUANDO MEUS FILHOS ERAM PEQUENOS”

Conto

QUANDO  MEUS  FILHOS  ERAM  PEQUENOS
 
Escrito por:

NOZIEL  ANTONIO  PEDROSO

Agosto  de  2007
 
                   
           Lembro-me  como  se  fosse hoje.  Estávamos ainda  a tilintar nossas  taças,  buscando  no  ar  a renovação da esperança, o êxtase, a alegria  imensurável  da  alma  passeando  pelo  paraíso,  a  comemorarmos a  chegada  do  novo.   Ainda   sou   capaz  de  ver  brilhos  de  regozijo  a  se  estabelecerem  nos  quatro  cantos  da  casa.  Minha  visão  alcança  ainda  a  visualização  do  mosaico de pedras preciosas a espalhar seu brilho  multicor,  meus  ouvidos  captam  ainda o som de violinos.  Recordo-me,   outrossim,   com  ímpeto  sagaz,   que   achava   pouco  e  bom  passar  noites  quase   em   claro,  fazendo  compressas  e  acompanhando   a   languidez  daquele  minúsculo  ser,  ardendo  em  febre.  Não  faz  muito  tempo,  me  parece,  que  o  pequeno,  entregue  aos  folguedos,  esfolasse  o  joelho  na pedra,  sentindo  na  pele  a  aspereza  e  jeito  brusco  desse  nosso  mundo  tosco,  que  dele  faria  parte.  Pouco  tempo  decorreu,  quiçá,   entre  a  primeira  palavra  e  a  primeira  decepção  que  tive,  com  aquele  ser  que  habitou   minhas  entranhas.   Quantas  vezes  corri  com  o  cotidiano,  atropelando  as  atribulações   do   dia-a-dia   para  poder  dar  um  pouco  mais   de  atenção  àquele  que  era  então  a  pessoa  mais  importante  e  frágil  na  minha  vida.  Seguramente  aquele  tempo  era  bonito,  e  mais  bonito  se  tornava  ainda quando  aquele  universo  pueril  fazia-se  presente  no  tempo  e  no  espaço. 
              Nunca  me  esqueci daquela linda  manhã  quando recebi o primeiro  presente.  Era  um  desenho  confuso,  com  traços imprecisos, mais  suscitando dúvida que esclarecimento.  0  que realmente seria aquilo?   Mas  o  que  importava,  se  nada  parecia?  Eu   sabia,   fôra  feito com  esmero,  com  cuidado,  num  lampejo  de  fantasia,  com precisão impregnada   de   magia.
             Me  vem  à  mente,  com  total  nitidez,  que  eu  deitava-me nas tardes  fagueiras  a  brincar com a brisa,  a acariciar as nuvens, qual plumas  vagantes  que  se  desfaziam,  lépidas,  em meus  devaneios.  Tudo,  meu  Deus,  era  tão  bom,  que  eu  nem  me  dava  conta  que  nessa   nossa   vida  terrena,    a  tragédia,  às  vezes,   anda   de  mãos dadas  e  em   cumplicidade  com   a   euforia,  arrasando  com   a   festa.   O  fadário,  em   forma  de  monstro,  não   nos   poupa  de  infortúnios, que  fazem-nos  experimentar  uma  sensação  de  horror,  sinistro,  solidão,  resignação,   frente  a  situações  que  nos  fogem  das  mãos.  Não  era  capaz  de  imaginar  que  a  dor  mais  pungente,  a  pontada mais lancinante,  a  aflição   mais  desoladora,  estava  a  me   rondar,  traiçoeira,  pronta  a  me  dar  seu  bote  fatal.    Não  fazia  idéia  do  quão  eu  nunca estivera preparada  para  os  solavancos que  a  vida  nos  dá, para absorver  as  agruras  que  o  destino,   às   vezes,   nos  reserva,  sem  piedade.   Para  mim   só   existia  o  brilho  do  sol,  o  arco-íris  e  quem  sabe,   um   pote   de   felicidade  do  lado  extremo.   
             Jamais  me  apeguei  a  tão  tenra  e  doce  recordação  quanto  aos tempos  em  que  meus  filhos  eram  crianças,  puras,  qual  anjinhos da guarda  a  enfeitar  meus  dias.   Parecia  que  toda  a  energia  do mundo  estava  em  minhas  veias,  parecia  que  todas  as  certezas do planeta adentravam  minha  alma,  parecia  que  todas  as  árvores  do  mundo exalavam   o   mais  puro  oxigênio  que  enchiam  meus  pulmões.   Achava   que  a  soma  de  todos  os  medos  era  nada,  comparada  à  minha   inclusão   na   roda  viva  da  dança   da  exuberância.  Eu  vivia  tão  contente,  que  acenava  para  o  sol  e  sorria  para  a  lua.
             No  entanto,  quando  todas  as estrelas serenas  pareciam  derramar   seu  brilho  sobre  a  minha  pele,  quando  os  mistérios  da  noite  faziam-se  longínquos  a  ecoar  estranhos  ruídos,  aquele acontecimento   veio   endoidecer   todo  meu  ser.  Eu  não  podia  acreditar   que   meu   mundo  desmoronara,  que  aquele  nefasto  episódio  veio  a  esmagar-me   a   essência,  a  torturar-me   em  crescendo,  a  estraçalhar-me  o  âmago,   a  arrebatar-me   a   paz   e   atirar-me  à  medonha   masmorra.   Nunca,  até   então,   havia  me  sentido  tão  só,  tão  perdida  e  desprotegida,  tão  entregue   à   inércia   e   ao destino  sem  futuro.  Perdão,   meu  Pai,  cheguei   até   a   pensar,   se   não  seria  melhor  eu   ter   partido   antes   desse   episódio   que,   seguramente,   foi    o  mais  fulminante   impacto   que  atingiu-me  de  forma  avassaladora  até  o  útero.   Não,  jamais   eu   seria  a  mesma,  após  esse  incidente  devastador,  que  abalou-me  as  estruturas como um tufão em tempestade,   arrasando  tudo   pelo   caminho. 
            Agora   sento-me  nas  tardes  vazias,  a  murmurar   de   saudade,  já  sem   a   cálida   esperança  de  restabelecer  contato  com   a  euforia.  Nunca   havia   notado  sequer   o  significado  da  palavra  saudade, até  mesmo  na  canção  mais  triste  já composta  por Chico Buarque,  PEDAÇO  DE  MIM,  que,  em  versos sofridos, dispara:  "Ó  pedaço  de  mim,   ó   metade  arrancada  de  mim,    leva   o   vulto   teu,    que   a   saudade  ao  revés  de  um  parto,  a  saudade  é   arrumar  o  quarto  do  filho  que  já  morreu"
            Apesar  do  decurso  de  alguns  anos,  já  não  mais  acredito na plena  alegria,   já   não  conto  mais  com   as  manhãs  serenas,  já  não  mais   dou   crédito  às  promessas  do  sol,    já  não  mais   vejo  o  desfecho  do  dia,   pois   todo  sofrimento  sugou-me   com  sofreguidão  as   forças   e   a   coragem.  Não  obstante  eu  tenha  caminhado  pelas  ruas  do  inferno,  nosso  Pai  Eterno,  pegou-me  em  Suas mãos e assoprou  as  feridas.  Ainda  bem.  Foi  o  que  me  salvou  de  ter  caído  para  sempre  num   mar  de  tristeza  e  solidão.
              Aliás,   a  duras   penas   recuperei   -   por assim dizer   -   minha  coragem,   sim,   para   observar   de   longe   o   raiar    de    um    novo   dia,    de   ver   findar-se    a    noite,    mas    já    não   mais  significam   para   mim   a   mesma    coisa   QUANDO  MEUS  FILHOS  ERAM  PEQUENOS.  E   ter   ciência  que  isso  nunca  mais   se  repetirá,  faz-me   amargar  uma  espécie  de  desilusão  e  derrota.   Porém,  sinto  que  estou  sendo   afagada   pelas  Mãos  Divinas,  o  alento   mais  imprescindível, com  a  qual fui  privilegiada.  Mas… a  vida  continua.   Tem que continuar.  Há   outros  seres,  no  entanto,   que   amenizaram   a   dor  pela  partida   de   um    ser  insubstituível…  Todavia,  transcorram-se  dias,  semanas,  meses,  anos,  décadas,  séculos,  milênios,  bilênios,  trilênios,  nada  aplacará a dor  que  sinto  desde   aquele   dia,   que  preferia   nunca  ter  vivenciado.    
              Desde   aquele  24  de  setembro, que  as  manhãs de primavera não  cintilam   tanto  quanto  antes.   Nem  a  doce  brisa,  em  mil  anos,  me trará  de  volta  a  alegria  perdida,  tampouco  a  exuberância e perfume  das   flores   me  fará  regressar   ao   porto  da  esperança.   
       
Conto  escrito  especialmente  para   minha  amiga  MARIA DAS DORES PRENZIER OLIVEIRA, referente  ao  filho  Ewald,  nascido  em  13  de Junho de 1985 e que teve passamento  em  24  de setembro de 2004.

criado por camiloaparecido    18:09 — Arquivado em: As Lendas , Contos e Histórias — Tags:, , ,

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