Curiosidades do Vale do Ribeira e Suas Cidades

Este blog tem por finalidade mostrar as belezas naturais do Vale do Ribeira ,suas Histórias,curiosidades,lendas ,culinaria e suas Cidades : Registro-sp , Sete Barras , Eldorado ,Jacupiranga , Cajati, Pariquera-açu, Iporanga, Ribeira, Iguape etc….

7.4.09

“HISTÓRIAS DO FUTEBOL REGIONAL”

 

   “HISTÓRIAS DO FUTEBOL REGIONAL” 
                 
                                     Com o surgimento e desenvolvimento do “Football”,  nas cidades e vilas do médio e baixo Ribeira, o transporte fluvial era muito utilizado  para os eventos esportivos, principalmente naquelas  que não eram servidas pelas linhas de Trem. Formavam-se caravanas de futebolistas e, dependendo das distâncias, demoravam dias para chegarem e retornarem dos locais das disputas. Um pouco desse passado é relatado pela imprensa local nos jornais da época, retratando uma viagem de Iguape a Pedro de Toledo.  
                                               Em outubro  de 1927, em Alecrim (Hoje, Pedro de Toledo), o Brasil Futebol Clube (tido como campeão na linha Juquiá) presidido pelo Sr. João Saltini  e o Diretor Esportivo  Dionísio Bittencourt, convidara a Associação Atlética Iguapense para um jogo em que estava em disputa, taças oferecidas pelo Major Antonio Laborde com os dizeres: “Honra a Iguape e Honra ao Alecrim”.
 
                                               Pela manhã do dia 22 de outubro, deu-se o início da viagem da comitiva iguapense, que foi realizada no fluvial “Juquiá”, chegando ao Porto de Santo Antonio do Juquiá às 10:00 h. Embarcam no Trem e seguindo viagem, por onde passavam, havia grande concentração de pessoas nas estações de Juquiá, Prainha e Pedro Barros para assistir ao jogo.Chegando a Alecrim , foram recebidos pela diretoria do Clube local.
 
                                               A caravana da Associação Atlética Iguapense era composta por: Antonio Santiago (capitão), Onésio França, Sizenando Carvalho, Eduardo Young Filho, Raul Rios, Américo Amâncio, Lauro Gatto, Antonio Procópio, Dacio Carvalho, Paulo Ramos e Agostinho Camargo, tendo como diretor o Capitão Fioramante Giglio.e os Srs. João Bonifácio, F. Giglio Júnior, Júlio de Souza e João Maciel.
 
                                               A equipe do Alecrim era composta de jogadores  renomados que pertenceram a diversos clubes de São Paulo e interior, como: Leró (zagueiro do Caçapava), Nhonho (do Comercial de Ribeirão Preto), Moutinho Monteiro, antigo jogador do C.A. Paulistano da capital, Antonio Seabra, de S.Paulo, Macuco, Guido e Alberico de Itariri, sendo apenas três jogadores de Alecrim.
 
                                               O jogo foi realizado no dia 23 e terminou empatado em 1 x 1, com gols de: Moutinho de penalty para o Alecrim e Onésio para Associação Atlética Iguapense. Após o jogo realizou-se um baile no Salão do Sr. Albano Marietto. O retorno dos iguapenses ocorreu no dia 24 à tarde. Chegando a Santo Antonio do Juquiá, se hospedaram no Hotel M.Doi, onde foi servido um profuso copo de cerveja pelo Sr. Lupércio Ribeiro, conferente  da Estrada de Ferro.
 
                                               O regresso pelo rio se deu pelas 05:00 h. da manhã do dia 25. Chegando a Iguape, foram recebidos pela comunidade com  vivas, foguetório e banda de música.
                                               Demorava praticamente 04 dias para de deslocar de uma cidade a outra. Não se compara a realidade de hoje com a expansão das rodovias e o advento dos veículos automotores. Fica o exemplo de dedicação e amor ao esporte das multidões.
 
 
                                                                                  Miracatu, 18 de março de 2009.
 
Fonte: Jornal “O IGUAPE”, 30 de outubro de 1927 - ANO IV - NUM. 138 - (Acervo: Museu Municipal de Miracatu “Pedro Laragnoit”).
 
Pesquisa: Laerte de Camargo Araújo.
 
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5.4.09

A História do “JUQUIÁ BEISEBOL CLUBE”

A História do "JUQUIÁ BEISEBOL CLUBE"

O beisebol vinha tendo um grande dsenvolvimento pelo interior paulista.. Não fugindo à regra, em 1954, nipobrasileiros fundaram o "JUQUIÁ BEISEBOL CLUBE", entre os quais: Seiske Hanashiro, Itiro Kawashima, Guichi Maeda, Kamenosuke Tamada, Zenith Yamamoto e outros. Era filiado a Federação Paulista e disputava o campeonato da região litoral sudoeste. Em 1956, alcanço o 3º lugar na classificação. Participaram também da sua diretoria: Hideo Baba, Shitio Toma, Thobo Akamine, Shigueo Yamamoto, José Torikai e José Nakamura.
 
Nota: O Clube localiza-se na Rodovia Régis Bittencourt (entrada de Juquiá).
         O beisebol não é mais praticado.
         Participa de competições da Liga Nipobrasileira  Linha Santos-Juquiá no Atletismo e    Futebol

Fonte Laerte de Camargo Araujo

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31.3.09

A ilha dos tesouros

A ilha dos tesouros

 

Conta a lenda que em 1627 apareceu na vila de Iguape, no litoral sul de São Paulo, um velho marinheiro desertor. Ele trazia embrulhado em folhas de plantas uma boa quantidade de ouro. O marinheiro dizia que, perdida entre a floresta e os morros da ilha do Cardoso, 60 quilômetros ao sul de Iguape, havia uma lagoa tão cheia de ouro que até a mata possuía um brilho dourado. O ouro, jurava ele, era suficiente para cobrir as ruas da vila e bastava mergulhar as mãos nas águas da lagoa para trazê-las carregadas do metal. Centenas de pessoas tentaram, em vão, descobrir ouro na lagoa da ilha do Cardoso. Mas até hoje ela é conhecida como lagoa Dourada.

São outros, na verdade, os tesouros dessa ilha a UNESCO, organismo das Nações Unidas que trata de assuntos de ciência e cultura, a incluiu entre os lugares que devem ser preservados em caráter de urgência. De fato, a ilha é um dos últimos santuários ecológicos do mundo, criadouro de aves, camarões, ostras e peixes que, além de povoar todo o litoral sul do Brasil, alcançam o Rio Grande do Norte (a quase 4 mil quilômetros de distância), como ficou comprovado por pesquisas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Desde 1962 transformada em Parque Estadual, a ilha do Cardoso está tecnicamente sob a proteção do governo.

Localizada na altura da divisa de São Paulo com o Paraná, quase 90 por cento dos seus 14 mil hectares (140 quilômetros quadrados) estão cobertos pela mata atlântica. Trata-se de uma verdadeira ilha dentro de outra, uma minúscula amostra do que foram as majestosas florestas litorâneas de antigamente. Separada do continente por um estreito canal de águas salobras, uma linha divisória natural entre o passado e o presente da costa brasileira, e defronte à ilha de Cananéia, é um valioso estoque natural de plantas e animais que sobreviveram às ações devastadoras da colonização.

Para os ecologistas, o enorme valor ambiental da ilha do Cardoso apóia-se num tripé paisagístico de primeira grandeza: mangue, restinga e mata atlântica. O Departamento Estadual de Recursos Naturais de São Paulo vem desenvolvendo desde 1985 na própria ilha, cursos abertos a escolas em geral com o objetivo de discutir a relação homem natureza. Para isso, existem ali laboratórios de Biologia e alojamento para estudantes e monitores na extremidade norte da ilha. O único povoado, a vila do Marujá, onde vive a grande maioria das noventa famílias de pescadores que constituem a população do Cardoso, fica no outro lado, entre a ilha propriamente dita e a restinga que avança no território paranaense. A característica principal de uma restinga é a de ganhar terreno do mar, estirar uma ponta de areia a partir de um ponto da costa, criando, a princípio, apenas um quebramar natural. Muitas vezes, no entanto, ela se prolonga, seguindo o remanso que criou, e se transforma numa comprida planície paralela à costa, como é o caso, por exemplo, da restinga da Marambaia, no Estado do Rio. Vários fatores contribuem para a formação de uma restinga, mas pelo menos três são fundamentais: a presença de mares rasos; a existência de uma corrente litorânea esbarrando numa ponta da costa; a abundância de areia em suspensão na água do mar e, naturalmente, muito tempo. Uma restinga como a da ilha do Cardoso leva, no mínimo, 7 mil anos para se formar.

A costa brasileira tem belos exemplos de restingas. As mais impressionantes pelo tamanho são as do Rio Grande do Sul, abrigando as lagoas dos Patos e Mirim. Na ilha do Cardoso, a restinga se estende por quase 40 quilômetros, formando um pequeno mundo de transição para os seres vivos instalados entre a praia e a mata. A vegetação das restingas é uma verdadeira salada mista criada pelo encontro das plantas colonizadoras da areia com aquelas que vivem nas planícies e serras litorâneas. Há uma interpenetração nesse encontro, mas ainda assim é possível encontrar uma certa ordem no aparecimento das espécies vegetais desde a praia até o interior.

As mais próximas da praia são as que melhor suportam a salinidade do ambiente. Além do contínuo borrifo da maresia, elas agüentam o próprio sal deixado pela maré alta ou trazido pela brisa depois que seca a areia da praia. Sol, calor, sal, areia e a constante evaporação de qualquer fonte de umidade não é de espantar que a paisagem de uma restinga se pareça, em alguns lugares, com as caatingas do sertão nordestino. São cactos, bromélias e capins uma vegetação que os índios chamavam de jundu. Ela forma uma zona de transição entre as plantas da beira da praia e a mata atlântica, quando o solo arenoso ganha uma camada de folhas secas, tornando-se mais rico em matéria orgânica e permitindo o desenvolvimento de plantas num ambiente úmido e sombreado.

Distantes da praia, as árvores alcançam alturas de 20 ou 30 metros. Ali, samambaias gigantes e uma enorme quantidade de cipós já denunciam a presença da mata atlântica. As espécies mais resistentes, como a quaresmeira (gênero Tibouchina), que após uma queimada é das primeiras a fazer o reflorestamento natural, podem chegar a poucos metros do mar. A mata atlântica recobre não apenas todo o interior da ilha como até o topo dos morros (o mais alto mede 800 - metros), constantemente envoltos em neblina. De dentro dessa massa vegetal surgem pequenos riachos de água doce que correm para o mar. Nos canais tranqüilos do manguezal, a água doce que desceu das montanhas mistura-se e lentamente com o sal trazido pelas marés. O resultado é uma água salobra, uma espécie de sopa turva e morna enriquecida por argilas e restos de vegetais decompostos.

O mangue é considerado pelos biólogos marinhos como uma incubadeira natural para inúmeras espécies de peixes que, depois de acrescidos, vão para o alto - mar. Tainhas, robalos, camarões e caranguejos começam suas vidas como minúsculos habitantes do mangue. Boa parte do consumo de frutos do mar no país depende, portanto, da preservação dos manguezais. que já vão se tornando escassos ao longo do litoral brasileiro.

Antigamente eles pontilhavam o litoral, do Amapá até o sul de Santa Catarina. Mas foram sistematicamente destruídos por aterros e derrubadas, a pretexto de obras de saneamento. Afinal, o mangue sempre teve fama de lugar insalubre, foco de doenças malignas transmitidas pelos mosquitos abundantes que se desenvolvem nas poças de água. Só recentemente houve uma conscientização da importância desse ecossistema. Mas os aterros e derrubadas continuam, agora por outros motivos abertura de loteamentos e corte de madeira para carvão.

Se isso continuar, muitas conseqüências desagradáveis irão castigar os moradores dessas regiões. A pior delas poderá ser uma deformação rápida e descontrolada dos terrenos adjacentes aos manguezais destruídos, resultante da derrubada dos quebramares naturais que são o emaranhado das raízes das árvores típicas do mangue. Na região da ilha do Cardoso, o mangue é ainda uma paisagem de inesperada harmonia no encontro da floresta com o mar. E isso talvez valha mais do que o ouro dos sonhos do velho marinheiro.

A Ilha do Cardoso, vem sendo preservada como santuário ecológico para abrigar animais e vegetação, que sobreviveram as ações devastadoras da colonização.

A ilha do Cardoso, no litoral sul de São Paulo, está sendo preservada para que centenas de espécies animais e vegetais possam sobreviver.

Fonte Roberto Muylaert Tinoco

Fonte http://super.abril.com.br/superarquivo/1988/conteudo_111375.shtml

 

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5.3.09

Conto “AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA”

 

AQUI  SE  FAZ,  AQUI  SE  PAGA
 
(Noziel Antonio Pedroso)
 
Conto:
NOZIEL ANTONIO PEDROSO
28 de Julho de 1996
 
 
Meados de 1960. Cidadezinha do interior de Minas Gerais. Colégio João de Abreu Salgado. Estudantes do curso primário. Turminhas que se formam, amizades que se entrelaçam, gostos comuns e afins, encontro da patota.
- Êi, Susana, vai ter  um bailinho na casa de Adriana. Vamos?
- Que horas?
- Ah, sete da noite…
- O Cardosinho vai?
- Acho que sim… ele não perde uma…
- Ah, então não posso perder…
O bailinho que acontece. Som de Renato e Seus Blue Caps, Roberto Carlos e seus contemporâneos, The Beatles.  Ensaio de namoro. Beijos roubados. Cuba libre. O  mundo  acontecendo lá fora. Decretado o Ato Ins­titucional  nº  3,  nos  termos do  qual  os  governadores  dos  Estados  brasileiros  serão  eleitos  por  votação do Legislativo;  acusado  de conspirar  con­tra  o  presidente Mobuto, do Zaire, o ex-primeiro ministro Evariste Kimba  é  enforcado;  a Taça  Jules  Rimet, roubada antes do inicio  da  Copa do Mundo, é encontrada por acaso pelo cão Pickles, em um  parque  público em Londres.  E  daí?  O  que  importa o que acontece no mundo? Vamos curtir um som legal. Nesse universo de amiguinhos, namoradinhos, um som que era um barato,  Lúcia observava a amiga Rute, uma cafuzinha bonitinha e jeitosinha, apesar dos dentes salientes e do cabelo ruim, sempre amarrado, porque era difícil de pentear. Rute, menina pobre e humilde, vivia sempre cercada de atenções, em razão de ser uma pessoa boa, se dava bem com todos. Lúcia, apesar de ostentar uma melhor situação de vida, não tinha o desembaraço e espontaneidade de Rute. Lúcia era filha de professora e de um pequeno fazendeiro.  Lúcia se vestia bem, andava com os vestidinhos da moda, causando até inveja em algumas amiguinhas. Rute, tadinha, cabelinho ruim, roupinha surrada, perfume barato, mistral, colônia da contoré. Os garo­tos preferiam a humildade e pobreza de Rute à "riqueza" de Lúcia. E as duas eram amigas.
O bailinho acabou. Vieram outros bailinhos, festinhas de aniversário. Rute, sempre cercada de amiguinhos. Lúcia, quase só num canto da sala. A menina de melhor posição social, começava a nutrir uma inveja secreta pela amiguinha.
- Rute, puxa, eu preciso fazer aquela matéria de História que a pro­fessora pediu, mas eu não sei fazer. Você me empresta seu caderno?
- Claro, Lúcia. Eu pesquisei num trabalho da minha, prima e consegui ­fazer tudo. Se quiser, eu empresto pra você copiar.
- Puxa, você faz isso?
- Espere aqui, vou buscar o caderno. Mas olha, não fala pra ninguém, tá? Vamos fazer de conta que você mesmo fez sozinha… se a professora descobre…
- Nossa, Rute, você é sempre tão boazinha com os outros…
- Ora,  Lúcia, acho que a gente deve ajudar sempre os amigos.
Brrrrrr!  Isso me dá gastura. Como é que pode? Ser assim tão boazinha?
E o pior é que todo mundo gosta dela. Mas ela é tão pobre, não tem o que comer direito… o que vestir. Já sei, vou dar  pra ela. Isso vai deixar ela humilhada.
- Nossa, Lúcia, muito obrigada. Eu estava mesmo precisando de umas roupas. As minhas são tão velhas, que já não da mais para costurar. Essas suas roupas são muito bonitinhas. Muito obrigada mesmo. Vou usar com muito carinho.
Bolas. Ela gostou. Não era pra ela gostar. Era pra ela se sentir ultrajada, diminuída. Meu plano não deu certo. Mas, puxa vida, o trabalho de escola que ela me passou foi tão bem feito. Ti­rei uma boa nota. Se não fosse ela… mas… porque que ela tem que ser tão boazinha? Porque os outros preferem a ela? Ela é tão pobrezinha. E eu? Pago sorvete pras minhas amigas, sempre estou repartindo o meu lanche.  Ela, coitada, aposto que nunca viu um pão com presunto. E ainda por cima, preta, de cabelo pixaim, dente pra fora.
- Olha, Rute, trouxe mais umas roupas para você. Sabe, é que meu pai comprou aquele vestido lá da loja do Garcia.
- Nossa, Rute, que bom. Lá só tem vestido caro. Eu nunca que vou poder comprar um. Você sabe, meu pai trabalha na Prefeitura e faz isso daqui para pôr comida em casa. Tem vezes que só comemos mingau.
“Ah, que bom. Então ela confessa que passa fome. Já sei, vou convidá-la para comer lá em casa.  Ela vai ficar boba com a quantidade de comida”.
- Sabe,  Rute,  eu  estive pensando, você foi tão boa comigo, me em­prestando o caderno e sempre está me ajudando nas lições. Vamos almoçar lá em casa domingo?
- Verdade? Puxa, que bom. Eu aceito, Lúcia. Estava mesmo querendo conhecer sua casa.  Deve  ser  tão  bonita e arrumadinha. Não convido você pra ir à minha, porque você sabe… lá é tão pequeno, minha mãe quase não tem tempo pra arrumar. Eu tenho muitos irmãos pequenos, minha mãe tem que lavar roupa pra fora pra ajudar meu pai…
- Eu sei Rute. Não tem importância, não…
"Ah, agora sim. Vou fazer essa pretinha metida a besta sentir vergo­nha de ser minha amiga. Ela vai ver só".
- Pegue um pouco mais de carne, Rute. Aproveita, que você não está acostumada com isso…
- É verdade, não me lembro qual foi a última vez que eu comi carne lá em casa. Acho que foi no Natal…
- Isso porque foi o prefeito que deu pra vocês…
- Ah, nem sei direito, só sei que comi carne no Natal…
"Caramba, ela não fica constrangida. Nada consegue abalar essa negrinha. Que raiva. Vou apelar".
- Me diz uma coisa, Rute. Seu pai foi escravo?
- Que é isso, Lúcia. Meu pai nasceu em 1930 e a Abolição da Escravidão se deu em 1888.  Meu  avô, pai do meu pai, já nasceu livre…
- Sabe, que eu tinha me esquecido? Já estudamos isso…
- Agora,  meu  bisavô foi. Coitado, sofreu tanto …
- Ah, então já  tem alguém da família que foi escravo?
- É, menina, naquele tempo era tão difícil. Minha bisavó, por parte de mãe, era índia.  Meu  bisavô era escravo. Imagine só…
- Ah, quer dizer que você tem sangue índio também?
- É,  de negro e índio… mas eu me orgulho muito disso. Sou negra e não me envergonho disso. Meu pai me ensinou desde que eu era muito pequena, a nos valorizarmos. Eu me sinto forte  e  em  igualdade com qual­quer um.
"Puxa vida, que negrinha de fibra. Consegue sair de todas com cabeça erguida.  Não  sei mais  o  que  fazer.  Mas… puxa,  ela  é  tão  minha amiga…
Acabaram-se os bailinhos. Acabou-se o curso primário. Acabou-se a adolescência.  Passaram-se  os  anos.  Foi-se  com  o  tempo as festinhas da patota.
- Oi Rute, quanto tempo hein? Como é que você está?
- Lúcia, que saudade… eu estou bem. Trabalho na loja do Marco. Sabe, estou me dando bem. Lá a gente faz muita amizade. "Não acredito. Ela continua se dando bem. Tenho que dar um jeito".
- Valquíria, preciso te falar uma coisa. Olha, eu não queria falar, mas, você sabe né, eu sou muita amiga da Rute…
- Fala, o que houve?
- Ela anda espalhando por aí que você…
- O quê?
- Te digo mais… ela… blá blá, blá…
- Ah, mas se eu pego a Rute…
- Bem, já que estou contando vou contar tudo. Ela… tititi, tereré, tereré, patati, patatá…
- Quem diria, hein… Rute, com aquele jeito de boazinha…
- É, conseguiu enganar. todo mundo…
"Ah, agora sim. Quero ver Rute se sair dessa. Fiz a cabeça da Valquí­ria contra ela".
- Rute, sua vaca, não sabia que você era tão baixa…
- Uai, por que? Que aconteceu?
- Ainda bem que a Lúcia me abriu os olhos, sua traidora…
- Pera aí, não sei do que você está falando …
- Não sabe, é? Sua sem-vergonha, amiga falsa…
O tempo passando. As coisas acontecendo. Começa a fun­cionar em são Paulo o metrô, sete quilômetros da linha norte-sul. Nos States o brasileiro Emerson Fittipaldi vence pela segunda vez o Campeo­nato de Fórmula 1. O Presidente Ernesto Geisel sanciona a lei que de­termina a fusão dos Estados de Guanabara e Rio de Janeiro.  E  Rute, que decepção. Lúcia era minha melhor amiga. Porque ela fez isso? Nunca fiz nada pra ela.  Mais  anos  se passam. O mundo acontecendo em notícias. Fa­náticos matam Anwar Sadat.  Casamento de Príncipe Charles e Lady Diana  mobiliza  o  mundo.  O  Presidente  Figueiredo  é operado  às  pressas em Cle­veland. É assassinado a tiros, dentro do seu carro, no centro do Rio de Janeiro, o famoso ex-policial Mariel Moryscotte.
- Sabe, a Rute está namorando sério. Acho que ela vai se casar…
- Verdade? Aposto que é com um preto pinguço e mulherengo.
- Não, pelo contrário.É um rapaz branco, trabalha numa grande empresa, ganha muito bem e, parece que ele não é daqui!
- Ah, não é possível. Depois de tudo ela ainda conseguiu se dar bem na vida? Que injustiça… Aquela negrinha, parente de preto e de índio… On­de já se viu?
A ação implacável do tempo continuava a todo vapor, levando para trás lembranças, casas, árvores e ventos. E Lúcia, agora amasiada. Esperando um filho. E o amásio?
- Você viu a Lúcia? Tão cheia de coisas, tão segura de si… acabou se amigando com o Lico, aquele negrinho sem-vergonha, maconheiro e pinguço.
- Não me diga! O filho do Tião Guarda?
- É, aquele mesmo …
- Nossa, coitada da Lúcia. Me lembro que ela era muito amiga da Rute. Nossa,  aquela sim é que era boazinha…
- Se deu bem na vida… casou-se com um rapaz muito bom. Mora numa ci­dade lá em São Paulo, tem casa própria e tudo o mais…
- Pena que ela e Lúcia ficaram inimigas…
- Cá entre nos, acho que  a  Lúcia inventou tudo aquilo. Não é possível que Rute fizesse tudo aquilo que ela falou…
- É o que todo mundo acha!
Meados dos anos 90. Havia se passado quase trinta anos que Lúcia e Rute haviam se conhecido.  Rute, agora estava muito bem. Foi passar férias na casa dos pais. Estava formosa, esbanjando saúde e  disposição.  Num parque, em que elas se encontravam quando crianças, Rute estava levando uma de suas sobrinhas para passear. Sentou-se em um dos bancos para observar as peripécias da sobrinha ainda infante. A seu lado, uma mulher gorda, dentes cariados, pele manchada,  cabelos opacos e sem brilho, ostentando um ar de desolação. Estampava no rosto as marcas dos anos, ainda com resquícios de hematomas pelo rosto.
- Oi …
- Oi …eu a conheço?
- Você é a Rute. Não mudou nada nesses anos todos…
- Ué, e você quem é?
- Sabe… você não reconheceu, mas você tem razão. Estou mesmo muito mudada… sou a Lúcia…
- Nossa, não reconheci mesmo… Lúcia!  Que aconteceu com você? Me dê um abraço. Não a vejo há décadas…
- É, todos falam, estou acabada, né?  Temos  a  mesma  idade. Você está bo­nita, viçosa, bem vestida…
- É que tive sorte, me dei bem na vida…
- Já ouvi falar muito de você… Sabe,  Rute, preciso te confessar uma coisa… Há anos que eu carrego comigo esse remorso… Eu preciso te fa­lar…
- Falar o que, Lúcia? Não estou entendendo…
- Sabe, Rute,  é  difícil  prá mim admitir, mas se passou tanto tempo que hoje não me importo mais…
- Nossa, Lucia, você está me deixando curiosa… o que pode ser?
- Sabe, Rute, eu sempre tive inveja de você …
 - O QUÊ? DE MIM?  assusta-se Rute.
- É isso mesmo. De você…
- Mas porque?  Você sempre teve muito mais do que eu…
- É, por isso mesmo. Eu não conseguia reunir as pessoas perto de mim como você  fazia…
- Mas, Lúcia, que bobagem… as pessoas, os colegas gostavam de mim pelo que  eu  era, naturalmente…
- É,  eu  me achava melhor que você…. e  no entanto …
- Mas…  Lúcia, nunca que eu imaginaria uma  coisa dessa…
- Sabe aquela fofoca que eu contei pra Valquíria? Eu confesso Rute, eu inventei tudo aquilo…
- Nossa,  Lúcia. Porque fez aquilo? Eu perdi quase todas as minhas amizades  com  aquelas fofocas…
- Talvez não seja tarde para você me perdoar…
- Olha, Lúcia, eu não guardo rancor. Hoje eu estou muito bem na vida!
- Como está seu casamento?
- Tudo bem, às mil maravilhas, meu marido é muito bom pra mim, me trata como rainha… estamos casados há quase dez anos…
- Nossa, Rute, que bom… sinceramente, hoje fico  contente  por  você, justo eu, que tive tanta inveja de você …
- E você?
- Ah, é  como  você já sabe… me amiguei com o Lico, filho de Tião Guarda… Já imaginou… eu que sempre interiormente desprezei você por ser escura… Lico é muito mais escuro que você… e o que é pior,  Rute… bebe, é um sem-vergonha, mulherengo, me bate…
- Nossa, Lúcia. Se antes você tinha  inveja de mim e hoje reconhece isso, hoje eu não posso deixar de dizer, sem maldade ou com desejo de te humilhar, tenho pena  de  você.  Jamais  imaginei  na  vida  que  um  dia iria  acontecer isso…
- Nossa, Rute, como essa vida dá voltas, não é mesmo? Hoje você tem tudo aquilo que eu pensava conseguir na vida e, eu, que sempre desejei pra você o que sou hoje… Os papéis se inverteram…
-Tia,  tia …
- Lúcia, preciso ir. Olha, fiquei realmente contente em revê-la e, mais contente ainda, por você ter reconhecido seu erro… mas acho que é um pouco tarde para  repararmos  isso… tudo  bem,  perdôo você, mas a própria vida te ensinou que a inveja é o mais pobre dos sentimentos e tudo que se deseja de mal para alguém que  estimamos, acaba por voltar pra nós mesmos. Não perdemos nada na vida por sermos bons,  Lúcia …  acredito que você já percebeu isso! Sempre gostei de você e nunca desejei qualquer mal pra você, mas a vida se encarregou de dar a cada uma de nós o destino que merecemos…
- É… estou conformada… aqui se faz, aqui se paga.  Ainda  bem que consegui lhe falar,  senão iria morrer com esse peso na consciência…
- Adeus, Lúcia…
- Até breve, Rute!
 
NOZIEL ANTONIO PEDROSO
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5.2.09

Conto “QUANDO MEUS FILHOS ERAM PEQUENOS”

Conto

QUANDO  MEUS  FILHOS  ERAM  PEQUENOS
 
Escrito por:

NOZIEL  ANTONIO  PEDROSO

Agosto  de  2007
 
                   
           Lembro-me  como  se  fosse hoje.  Estávamos ainda  a tilintar nossas  taças,  buscando  no  ar  a renovação da esperança, o êxtase, a alegria  imensurável  da  alma  passeando  pelo  paraíso,  a  comemorarmos a  chegada  do  novo.   Ainda   sou   capaz  de  ver  brilhos  de  regozijo  a  se  estabelecerem  nos  quatro  cantos  da  casa.  Minha  visão  alcança  ainda  a  visualização  do  mosaico de pedras preciosas a espalhar seu brilho  multicor,  meus  ouvidos  captam  ainda o som de violinos.  Recordo-me,   outrossim,   com  ímpeto  sagaz,   que   achava   pouco  e  bom  passar  noites  quase   em   claro,  fazendo  compressas  e  acompanhando   a   languidez  daquele  minúsculo  ser,  ardendo  em  febre.  Não  faz  muito  tempo,  me  parece,  que  o  pequeno,  entregue  aos  folguedos,  esfolasse  o  joelho  na pedra,  sentindo  na  pele  a  aspereza  e  jeito  brusco  desse  nosso  mundo  tosco,  que  dele  faria  parte.  Pouco  tempo  decorreu,  quiçá,   entre  a  primeira  palavra  e  a  primeira  decepção  que  tive,  com  aquele  ser  que  habitou   minhas  entranhas.   Quantas  vezes  corri  com  o  cotidiano,  atropelando  as  atribulações   do   dia-a-dia   para  poder  dar  um  pouco  mais   de  atenção  àquele  que  era  então  a  pessoa  mais  importante  e  frágil  na  minha  vida.  Seguramente  aquele  tempo  era  bonito,  e  mais  bonito  se  tornava  ainda quando  aquele  universo  pueril  fazia-se  presente  no  tempo  e  no  espaço. 
              Nunca  me  esqueci daquela linda  manhã  quando recebi o primeiro  presente.  Era  um  desenho  confuso,  com  traços imprecisos, mais  suscitando dúvida que esclarecimento.  0  que realmente seria aquilo?   Mas  o  que  importava,  se  nada  parecia?  Eu   sabia,   fôra  feito com  esmero,  com  cuidado,  num  lampejo  de  fantasia,  com precisão impregnada   de   magia.
             Me  vem  à  mente,  com  total  nitidez,  que  eu  deitava-me nas tardes  fagueiras  a  brincar com a brisa,  a acariciar as nuvens, qual plumas  vagantes  que  se  desfaziam,  lépidas,  em meus  devaneios.  Tudo,  meu  Deus,  era  tão  bom,  que  eu  nem  me  dava  conta  que  nessa   nossa   vida  terrena,    a  tragédia,  às  vezes,   anda   de  mãos dadas  e  em   cumplicidade  com   a   euforia,  arrasando  com   a   festa.   O  fadário,  em   forma  de  monstro,  não   nos   poupa  de  infortúnios, que  fazem-nos  experimentar  uma  sensação  de  horror,  sinistro,  solidão,  resignação,   frente  a  situações  que  nos  fogem  das  mãos.  Não  era  capaz  de  imaginar  que  a  dor  mais  pungente,  a  pontada mais lancinante,  a  aflição   mais  desoladora,  estava  a  me   rondar,  traiçoeira,  pronta  a  me  dar  seu  bote  fatal.    Não  fazia  idéia  do  quão  eu  nunca estivera preparada  para  os  solavancos que  a  vida  nos  dá, para absorver  as  agruras  que  o  destino,   às   vezes,   nos  reserva,  sem  piedade.   Para  mim   só   existia  o  brilho  do  sol,  o  arco-íris  e  quem  sabe,   um   pote   de   felicidade  do  lado  extremo.   
             Jamais  me  apeguei  a  tão  tenra  e  doce  recordação  quanto  aos tempos  em  que  meus  filhos  eram  crianças,  puras,  qual  anjinhos da guarda  a  enfeitar  meus  dias.   Parecia  que  toda  a  energia  do mundo  estava  em  minhas  veias,  parecia  que  todas  as  certezas do planeta adentravam  minha  alma,  parecia  que  todas  as  árvores  do  mundo exalavam   o   mais  puro  oxigênio  que  enchiam  meus  pulmões.   Achava   que  a  soma  de  todos  os  medos  era  nada,  comparada  à  minha   inclusão   na   roda  viva  da  dança   da  exuberância.  Eu  vivia  tão  contente,  que  acenava  para  o  sol  e  sorria  para  a  lua.
             No  entanto,  quando  todas  as estrelas serenas  pareciam  derramar   seu  brilho  sobre  a  minha  pele,  quando  os  mistérios  da  noite  faziam-se  longínquos  a  ecoar  estranhos  ruídos,  aquele acontecimento   veio   endoidecer   todo  meu  ser.  Eu  não  podia  acreditar   que   meu   mundo  desmoronara,  que  aquele  nefasto  episódio  veio  a  esmagar-me   a   essência,  a  torturar-me   em  crescendo,  a  estraçalhar-me  o  âmago,   a  arrebatar-me   a   paz   e   atirar-me  à  medonha   masmorra.   Nunca,  até   então,   havia  me  sentido  tão  só,  tão  perdida  e  desprotegida,  tão  entregue   à   inércia   e   ao destino  sem  futuro.  Perdão,   meu  Pai,  cheguei   até   a   pensar,   se   não  seria  melhor  eu   ter   partido   antes   desse   episódio   que,   seguramente,   foi    o  mais  fulminante   impacto   que  atingiu-me  de  forma  avassaladora  até  o  útero.   Não,  jamais   eu   seria  a  mesma,  após  esse  incidente  devastador,  que  abalou-me  as  estruturas como um tufão em tempestade,   arrasando  tudo   pelo   caminho. 
            Agora   sento-me  nas  tardes  vazias,  a  murmurar   de   saudade,  já  sem   a   cálida   esperança  de  restabelecer  contato  com   a  euforia.  Nunca   havia   notado  sequer   o  significado  da  palavra  saudade, até  mesmo  na  canção  mais  triste  já composta  por Chico Buarque,  PEDAÇO  DE  MIM,  que,  em  versos sofridos, dispara:  "Ó  pedaço  de  mim,   ó   metade  arrancada  de  mim,    leva   o   vulto   teu,    que   a   saudade  ao  revés  de  um  parto,  a  saudade  é   arrumar  o  quarto  do  filho  que  já  morreu"
            Apesar  do  decurso  de  alguns  anos,  já  não  mais  acredito na plena  alegria,   já   não  conto  mais  com   as  manhãs  serenas,  já  não  mais   dou   crédito  às  promessas  do  sol,    já  não  mais   vejo  o  desfecho  do  dia,   pois   todo  sofrimento  sugou-me   com  sofreguidão  as   forças   e   a   coragem.  Não  obstante  eu  tenha  caminhado  pelas  ruas  do  inferno,  nosso  Pai  Eterno,  pegou-me  em  Suas mãos e assoprou  as  feridas.  Ainda  bem.  Foi  o  que  me  salvou  de  ter  caído  para  sempre  num   mar  de  tristeza  e  solidão.
              Aliás,   a  duras   penas   recuperei   -   por assim dizer   -   minha  coragem,   sim,   para   observar   de   longe   o   raiar    de    um    novo   dia,    de   ver   findar-se    a    noite,    mas    já    não   mais  significam   para   mim   a   mesma    coisa   QUANDO  MEUS  FILHOS  ERAM  PEQUENOS.  E   ter   ciência  que  isso  nunca  mais   se  repetirá,  faz-me   amargar  uma  espécie  de  desilusão  e  derrota.   Porém,  sinto  que  estou  sendo   afagada   pelas  Mãos  Divinas,  o  alento   mais  imprescindível, com  a  qual fui  privilegiada.  Mas… a  vida  continua.   Tem que continuar.  Há   outros  seres,  no  entanto,   que   amenizaram   a   dor  pela  partida   de   um    ser  insubstituível…  Todavia,  transcorram-se  dias,  semanas,  meses,  anos,  décadas,  séculos,  milênios,  bilênios,  trilênios,  nada  aplacará a dor  que  sinto  desde   aquele   dia,   que  preferia   nunca  ter  vivenciado.    
              Desde   aquele  24  de  setembro, que  as  manhãs de primavera não  cintilam   tanto  quanto  antes.   Nem  a  doce  brisa,  em  mil  anos,  me trará  de  volta  a  alegria  perdida,  tampouco  a  exuberância e perfume  das   flores   me  fará  regressar   ao   porto  da  esperança.   
       
Conto  escrito  especialmente  para   minha  amiga  MARIA DAS DORES PRENZIER OLIVEIRA, referente  ao  filho  Ewald,  nascido  em  13  de Junho de 1985 e que teve passamento  em  24  de setembro de 2004.

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23.12.08

Quatro histórias diferentes procuram explicar a invenção do panetone

Quatro histórias diferentes procuram explicar a invenção do panetone - o pão doce e macio, perfumado e amanteigado, repleto de uvas passas e frutas cristalizadas, com formato de chapéu de cozinheiro, clássico de Milão, na Itália, hoje consumido no Natal do mundo inteiro.

A primeira e mais célebre, repetida desde o século 19, atribui sua criação a um certo Toni, ajudante da cozinha de Ludovico Sforza, o Mouro (1452-1508), duque de Milão. Não dispondo de dinheiro para o casamento da filha, ele preparou um pão doce e rico, que serviu na festa nupcial. Teria nascido assim o “pan de Toni” (dialeto milanês), posteriormente batizado de panettone.

A outra versão também envolve Sforza. Em um dos banquetes de Natal oferecidos pelo duque, o cozinheiro distraído queimou a sobremesa e a substituiu pelo enorme pão doce que o subalterno Toni fizera como experiência. Sforza gostou e perguntou o nome do que comia. Na falta de outra designação, chamaram-no “pan de Toni”.

A terceira variante permanece relacionada ao duque. O jovem Ughetto, filho de Giacometto degli Atellani, escudeiro de Sforza, apaixonou-se por Adalgisa, filha de um padeiro. Como a moça era pobre, a família do rapaz contrariou o namoro. Mas Ughetto teve a idéia de ajudar o pai de Adalgisa a inventar um pão que fez sucesso e o tornou rico, propiciando seu casamento com a amada.

A última versão credita o panetone a uma freira doceira coincidentemente chamada Ughetta, que vivia num convento onde a falta de recursos impedia a realização da festa de Natal. A religiosa viabilizou a comemoração preparando um pão com açúcar, manteiga, ovos e pedacinhos de cidra, colocando a massa para levedar demoradamente e assando-a até ficar dourada.

Apesar de românticas, essas explicações não encontram sustentação histórica. É o que mostra o pesquisador e ensaísta italiano Stanislao Porzio, no livro Il Panettone - Storia, Leggende e Segreti di un Protagonista del Natale (Guido Tommasi Editore, Milano, 2007). Segundo ele, o apetitoso pão natalino foi criado e aprimorado por autores anônimos, ao longo dos séculos. Originou-se na antiga “cerimônia do tronco”, uma velha liturgia doméstica realizada durante a Idade Média e Renascença, que misturava elementos pagãos e convicções cristãs. Acontecia na véspera do Natal, em boa parte da Europa, sobretudo na Itália. O dono da casa marcava uma cruz no alto de três grandes porções de massa de pão e as colocava para assar. Depois, pegava um pesado tronco de árvore e punha na lareira sobre ramos de zimbro. Ateava-lhe fogo, jogava um pouco de vinho nas chamas, tomava um gole e passava a bebida para os membros. Prosseguia a liturgia atirando uma moeda no tronco e distribuindo outras aos presentes. Finalmente, partia cada pangrande ou panatton, oferecendo pedaços ao grupo e guardando um para o Natal seguinte. Galeazzo Maria Sforza (1469-1494), irmão mais velho e antecessor de Ludovico no ducado de Milão, promovia em família a cerimônia do tronco.

A celebração era repleta de significados. Os pães divididos evocavam a Santíssima Trindade; a tora representava a árvore pagã do Bem e do Mal; o vinho, o sangue de Cristo; o fogo recordava a missão redentora do fundador do cristianismo. Para Stanislao Porzio, dela resultou o atual panetone. Ao longo dos anos, a preparação foi ganhando as características atuais, inclusive “um uso particularmente sofisticado da fermentação natural”. Mas só recebeu a primeira menção oficial em 1570, no livro Opera dell’Arte del Cucinare, do chef Bartolomeo Scappi, cozinheiro dos papas Paulo III e Pio V. Posteriormente, apareceu definido assim no dicionário Varon Milanes de la Lengua de Milan, de 1606: “Panatton (…) , pão gigante que se costuma fazer no dia de Natal”. Seu nome definitivo, porém, continua a suscitar discussões. Alguns autores, mesmo aceitando o primado da “cerimônia do tronco”, associam a palavra panetone ao vocábulo milanês panett, com o qual os padeiros da região designavam a conhecida massa madre. Já o formato atual de chapéu de cozinheiro só apareceu no início do século 20, quando entrou em cena o padeiro e confeiteiro Angelo Motta, de Milão. Pioneiro na industrialização da especialidade, ele aperfeiçoou a antiga receita, na qual aumentou a porcentagem de manteiga, ovo, açúcar, uva passa e frutas cristalizadas, além de ampliar-lhe o tempo de levitação e cozimento. É considerado por isso “o reinventor e favorecedor de sua expansão internacional”. No Brasil, a novidade chegou em 1952, trazida pelo italiano Carlo Bauducco, dono da marca homônima, de São Paulo. Foi assim que iniciamos a adoçar nosso Natal com o indispensável panetone.
 

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